Em setembro de 2018, tomei a maior decisão da minha vida: sair do meu ninho e tentar a vida em outro continente. É verdade que, em comparação a gerações passadas, não fiz esse movimento tão nova. Fazer isso aos 24 anos de idade já é irritar profundamente os mais velhos adeptos do discurso “Aos 19 eu já era tinha uma casa, três filhos, dois diplomas e uma frota de carros novos”. Mas, na atual situação brasileira, sair das asinhas parentais aos 24 não é nada trivial.

Só que o plano já estava traçado: (1) conseguir um diploma de mestrado em algum canto do planeta; e (2) ser capaz de me sustentar, minimamente. E lá estava: Portugal apareceu dando seu alô. Falam a minha língua (em teoria), não é tão frio, não é tão caro, há uma universidade que parecia ser boa e com valor acessível. Tentei e, algumas semanas depois, descobri ter passado.

Agora a corrida era contra o tempo: decidir o que levar, juntar o máximo de dinheiro e doar ou jogar fora parte dos pertences (já que perdi o quartinho que chamava de meu no Brasil). E o principal: me preparar psicologicamente para estar longe de todo mundo que conheço, exceto pelo querido que teve a coragem de fazer o movimento comigo.

Foram mais ou menos três meses para tudo isso. E, nesse meio tempo, a pergunta que mais ouvi foi “Como você está se sentindo?”. Estou me sentindo incrível, ué, como mais me sentiria? Estou realizando um sonho!
“Ah… Não caiu a ficha ainda. Daqui a pouco a gente conversa.”

No último mês em terras fluminenses, comemorei uma despedida praticamente todos os dias. Marquei em todos os lugares do Rio que mais gosto: Feira dos nordestinos, baixo Botafogo, comida na minha casa e, como gran finale, uma imensa feijoada com toda a minha agenda de contatos. Inconscientemente, a cada despedida veio a realização de que aquilo não seria mais parte do meu cotidiano. Que aqueles relacionamentos, cuidados com tanto amor, carinho, brigas e abraços, não fariam mais parte dos meus finais de semana. E sei que sou quem sou em grande parte por conta deles.

A pior montagem já feita no mundo. No final do texto tem outra melhorzinha. 

Eita, agora bateu.

Fazer a viagem agora seria foda de aguentar. Dizer eu te amo para os amigos passou a ser diferente. Agora, passou a ter a carga de “pelo amor dos astros, eu te amo e estou desesperada de saudades de você, maldito”.

Mas, então, começam as aulas do mestrado. O pensamento era prestar atenção no curso para não sofrer pela distância. Mas cuidado, há muitos casos de xenofobia em Portugal. Esteja pronta para o que aparecer. Mal as aulas começaram e a autoproteção já estava criada. Não vou deixar ser diminuída aqui, não mesmo. Presta atenção nas aulas, Gabriela, foca no teu futuro.

Eu tinha um plano traçado, porém o mestrado tinha outro. E aí vai um pedaço de informação para os brasileiros interessados em vir: aqui, pelo menos na minha área, há muito trabalho em grupo. Não é um mestrado no estilo “Leia esse livro e escreva sobre isso”. É um “vamos todos montar o trabalho em grupos de 5?”.

Deus me livre. Trabalho em grupo. É escola, isso aqui?

A turma do mestrado é relativamente grande. Não sou boa de contas, mas imagino algo em torno de 40 pessoas. Metade brasileira, metade portuguesa. A energia parecia ser, de forma generalizada, de gente que está animada, mas ao mesmo tempo sem saber o que esperar.

Dentro do campus, um ambiente de café e de conversa se tornou um ponto para passar o tempo entre as aulas (ou durante as aulas?). E foi aí que a situação começou a mudar de cenário. Somos em muitos, do norte ao sul do Brasil e do norte ao sul de Portugal. As experiências de vida compartilhadas são as mais diversas, os pontos de vista sobre assuntos, a variedade de tópicos, tudo foi se tornando aquele momento o de mais aprendizado dessa mudança radical de vida.

Com o tempo, não tive como continuar com minha muralha de autopreservação, com medo de ser maltratada pelos portugueses. Com o tempo, fui entendendo que todos os que conheço são, no fundo, muito parecidos comigo, nos sonhos, desejos, medos. Eles têm completo interesse nessa troca de visões, ouvem atentamente o que é dito e muito nos respeitam.

Então, consegui construir aqui um elo de relações que tinha certeza ser impossível, pelas nossas diferenças e porque, na minha cabeça, eles não seriam receptivos. Não é, obviamente, na mesma intensidade como no Brasil. Mas é tão fértil quanto. E é muito, mas muito inesperado. Aqui em Portugal eu conheci mais o brasileiro do que na minha terra natal. O universo me colocou no mesmo local com paulista, floripano, mineiro, curitibano, pernambucano, manauara (quem é de Manaus. Sabia disso? Nem eu). E, junto desses brasileiros, colocou portuenses, gaienses, retaixeira, coimbrense, maiata, covilhense, lisboeta…

Uma montagem menos pior. 

No fim das contas esse texto serve para vários propósitos: como um grande (bom) desabafo, para mostrar o outro lado da moeda da má fama de xenofobia, dizer eu te amo para os amigos do Brasil e um olá, novos amigos de Portugal. E, não menos importante, para mostrar aos responsáveis pelo ninho parental de que estou bem, e que estou sendo muito bem cuidada cá na terra dos tripeiros.

Um eu instrospectivo para terminar esse texto de forma reflexiva.

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